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REENCONTRAR-SE E REINVENTAR-SE PELA AFETIVIDADE DE JESUS

15 de setembro de 2020

O novo coronavírus, com os seus efeitos de isolamento social e radical mudança nas relações de trabalho e estudo, transformou o ano de 2020 numa experiência desafiadora, em que manter o equilíbrio, a saúde física e emocional tornou-se hercúlea tarefa e urgência. Por outro lado, uma nova contabilidade do tempo proporcionou, para muitos, maior convivência com os familiares, com os animais domésticos, um cuidado mais amoroso com a casa, com as roupas, um olhar diferenciado para o preparo dos alimentos, etc. Tudo ganhou uma nova dimensão e as relações de tempo-espaço sofreram sensíveis alterações. Dessa forma, muitos de nós oscilamos entre a ansiedade e a apatia, a falta de perspectiva e a esperança. E nunca o verbo reinventar foi tão usado.

A reinvenção é uma perspectiva constante na missão cristã. Toda a prática e discurso de Jesus é um convite para o homem reinventar-se, deslocar-se, sair de si, do seu comodismo, da sua dor e angústia e ir ao encontro do outro, partilhando com os irmãos as dores e alegrias de seu tempo. É só nesse movimento que, essencialmente, haveremos de nos encontrar. Assim, estamos num tempo singular, que nos propicia um reencontro com essa dimensão mais profunda do nosso ser: Deus quer ser o centro de nossa vida, quer fazer História conosco. Para isso, precisamos “baixar a guarda” e, numa atitude humilde, reconhecer que não temos controle de nada, que pouco ou nada sabemos sobre nós mesmos e sobre a vida. Quem imaginava, por exemplo, nas últimas festividades de Ano Novo, que alguns meses depois teríamos de andar de máscaras pelas ruas e ávidos por uma vacina?  É esse espírito de humildade que nos permite entender a dimensão desse Deus que não nos deixa sozinhos pelas encruzilhadas da História, mas que é educado e nos dá a liberdade para aderirmos ou não ao seu projeto.

A afetividade de Jesus nos sinaliza um oportuno caminho de conexão com o que há de mais sagrado em nós. A fé cristã configura-se como um paradoxo para muitos: um Deus que se faz homem e que nos ensina a sermos cada vez mais humanos, pois que assim nos aproximamos do Divino. Esse mistério, para muitos, é uma loucura! Um Deus que quis nos ensinar, pelos caminhos do Amor, a síntese do que é ser pessoa de verdade: ser capaz de amar! Sem compaixão e ternura, todo o discurso de Jesus perderia o sentido. Então, foi pelos caminhos do afeto que Ele nos assegurou um porto seguro: só quem ama poderá tomar parte daquela festa preparada desde há séculos para os eleitos. Mas quem são os eleitos? Os que amam! São João da Cruz, místico e doutor da Igreja, sintetiza: “No entardecer da vida, seremos julgados pelo Amor!”. Este momento, que nos obriga a ficarmos mais tempo conosco e com aqueles com os quais partilhamos o dom de viver, nos desinstala e questiona: como andam os nossos afetos e que sentimentos tomam o nosso coração? O que tem sido, de verdade, objeto de nossas preocupações?

Só um coração humanizado pode reconhecer Jesus como Mestre. Ele que viveu com autenticidade essa dimensão dos afetos, da alegria, da bondade, da tristeza, da amizade. Jesus é alguém que tem sentimentos profundos! Ele reconhece o carinho que devotamos às crianças que Ele abraça (Mt 19,13), compadece-se do jovem rico (Mc 10,21), alegra-se efusivamente com a fé de um pagão (Lc 7,9), chora com a morte do amigo Lázaro (Jo 11,33), sentia-se em casa, em Betânia, com Marta e Maria (Mt 21,17). Jesus também acompanhou e sentiu de perto as limitações humanas: a fome (Mt 4,2;Mc 11,12), a sede (Jo 4,7;19,28), o cansaço (Jo 4,6;Mc 4,38), as lágrimas (Lc 19,41;Jo 11,35), a tristeza (Mt 26,37), a experiência da tentação (Mt 4,1-11;Lc 4, 1-13), a angústia da morte violenta (Lc 22,44) e o abatimento profundo: “Minha alma está triste até a morte” (Mt 26,38). Não é difícil imaginar o olhar d’Ele para Maria de Magdala (Lc 7, 36) ou aquele diálogo amoroso, ao pedir água para a mulher samaritana (Jo 4,7).

Jesus, conhecendo as nossas limitações, contradições e dificuldades, faz História conosco e nos aponta a humanização como caminho para a paz e o amor. Quanto mais vivemos nossa integralidade como seres humanos, mais nos aproximamos da Divindade. E passa por esse caminho também nossa relação com a natureza: a água, os animais, as florestas, os oceanos. São Francisco de Assis, já na Idade Média, partilhava com seus companheiros a necessidade de cuidar da Casa comum. Tal apelo, hoje, é revisitado pelo Papa Francisco, pois “toda a criação geme e sofre dores de parto” (Rm 8,22).

Comenta-se muito em “novo normal”, mas, se entendermos “normalidade” como um percurso que se dará pelos mesmos caminhos de antes de março deste ano, então nada teremos aprendido com esta experiência de confinamento. Precisamos nos tornar novos homens, novas mulheres! E Jesus, como pastor amoroso, nos ensinou esse caminho. Somente pelos afetos curaremos este mundo doente, tão machucado e fragilizado. Para isso, é preciso abrir as portas do coração para o mistério de Deus, pois fomos criados para amar. Assim como Santo Agostinho, sentimos essa angústia e elevamos nosso pensamento para o Alto, em súplica: “Fizeste-nos para Ti, Senhor, e inquieto estará o nosso coração, enquanto não repousar em Ti. ”

 

Roberto Machado

Professor de Língua Portuguesa e Redação

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