Colégio Santa Maria

Redes

HOMENS (DES)CONECTADOS

Data: 09 de setembro de 2015

A Revolução Industrial, nos séculos XVIII e XIX, já sinalizara o surgimento de um novo perfil de sociedade. Historiadores afirmam que é esse movimento o embrião de todo o progresso tecnológico de que somos testemunhas, neste século XXI. De fato, a tecnologia e a economia ganharam, à época, força com o aprimoramento das máquinas a vapor, dos navios; o surgimento de ferrovias; a fabricação em larga escala de máquinas e o aumento do uso de fábricas que utilizavam a energia a vapor. Tal desenvolvimento ampliou-se na transição do século XIX para o século XX. E hoje, assistimos, por vezes estupefatos, a um avanço sem igual, por conta de todo o arsenal tecnológico de que dispomos em nossa vida pessoal e profissional.

Se a ampliação da tecnologia é um fato indubitável e um caminho sem volta, podemos afirmar, seguramente, que ela nem sempre esteve – e nem sempre está – a serviço do bem comum, a serviço da construção de um senso crítico saudável ou de uma sociedade mais humana. Vivemos conectados, plugados, ansiosos por saber quem curtiu a foto que postamos ou aderiu à ideia que expusemos. Por vezes, a “curtida” do outro torna-se o alimento de nossas carências; e a simples oposição a um ponto de vista, indício de um futuro rompimento de amizade. Naturalmente os excessos não podem ser generalizados, mas, para não poucos, a necessidade de estar constantemente conectado beira a estados patológicos. É importante ressaltar que a tecnologia não é um mal em si e que, sem ela, nossa vida não seria a mesma. No entanto, o tênue limite entre o uso saudável dos recursos para nós disponibilizados e a constatação de uma geração de homens e mulheres viciados em tecnologia nos leva a algumas ponderações.

Neste século XXI, somos escravos do tempo. Nosso ritmo de vida acelerado não nos permite mais os hábitos tão saudáveis de nossos avós, como a confraternização e a boa conversa com os vizinhos e até mesmo com nossos familiares, com quem coabitamos. O tempo da leitura e da salutar busca de uma vida interior também é escasso. Criamos cada vez mais obrigações para nós mesmos e, paradoxalmente, a tecnologia em nada facilita esse processo. Pelo contrário, apresenta-nos outras tantas tarefas, como responder às inúmeras mensagens que, por exemplo, recebemos pelo  WhatsApp ou saber quem respondeu ao nosso tópico ou saciar a nossa curiosidade por saber por quem fomos virtualmente “cutucados”. Ficamos cansados. Estamos cansados. E travamos uma batalha contra o tempo. Por vezes, agimos tão mecanicamente que não sabemos nem mais quem somos, o que queremos, o que buscamos. Nossas relações interpessoais estão desgastadas, é que falta um olhar mais terno quando se diz um bom dia, ou tempo para perguntar, sem pressa ao nosso vizinho ou colega de trabalho, como ele está.

Os jovens são as presas mais fáceis desse processo de desumanização. Com eles, o efeito é devastador, porque talvez lhes falte maturidade ou discernimento sobre a própria dinâmica da vida, sobre os afetos. Particularmente e para fim de ilustração, cito o caso de um sobrinho de 17 anos, amante do rock, com uma natureza aparentemente introvertida. Aparentemente? Soube, há poucos dias, que tem vários amigos virtuais. São jovens brasileiros, apaixonados por rock, que vivem no Japão. Meu sobrinho refere-se a eles como amigos reais, pessoas com as quais ele diz que pode contar para o que der e vier… Esse rapaz, no entanto, não tem um amigo no condomínio onde mora, nem na escola, sequer sabe o nome dos vizinhos e raramente sai de seu quarto. Por conta desses amigos que vivem no Japão, vara noites e noites em colóquios virtuais intermináveis, apresentando baixo rendimento acadêmico e um aspecto sempre sonolento, distante. Há algo errado nessa lógica.

Também nós, adultos, vamos aderindo a esses modismos e a outros, tipicamente caracterizadores de um tempo onde vale o ter sobre o ser. Notemos que a preocupação de muitos não é ser amigo, mas ter amigos… O consumo também configura outra prática de escapismo com a qual vamos coadunando. A necessidade de comprar cada vez mais, acompanhando o ritmo do mercado, as tendências; a competição que nosso ego cria com aquele colega que chegou ao trabalho apresentando um celular com mais recursos que o nosso; o sapato que parece dialogar com nossos olhos, quando daquela ida rápida ao shopping, parecem nos impor uma política de que consumir é condição de felicidade, de bem estar. E nós vamos cedendo, às vezes sem perceber. As ideias que a mídia nos apresenta, diariamente, sem que percebamos, começam a fazer parte de nosso sistema de discurso e comportamento. E vamos perdendo nossas referências, esquecidos de quem realmente somos. E nessa conjuntura doente, vamos adoecendo…

Com efeito, nunca estivemos tão doentes, tão frágeis, tão incapazes de lidar com nossas mazelas. Atrevo-me a dizer que nunca a indústria farmacêutica ganhou tanto dinheiro com os transtornos de natureza psíquica. Diariamente novas anomalias são nomeadas e mais pessoas adoecem. A tecnologia não nos poupou dessa realidade. E, em alguns casos, até corroborou esse processo. As famílias também estão doentes. Pais omissos e irresponsáveis negligenciam a missão mais sagrada que lhes cabe: transformar seus filhos em seres tão somente… humanos. Muitas crianças e adolescentes, frutos do desleixo daqueles com os quais deveriam tudo aprender via exemplo, crescem sem a mínima referência de autoridade. Presentes com alta precisão tecnológica não podem substituir a conversa franca, o olho no olho, o afago e a firmeza tão indispensáveis. E é a escola que colhe esses frutos amargos do desamor e da indisciplina, tendo que buscar alternativas para lidar com muitos alunos carentes de autoridade, respeito, exemplos. Nesse contexto, o professor precisa interiorizar-se, espiritualizar-se, cuidar de suas emoções. No entanto, muitos professores também estão doentes. Perderam-se. Cansaram-se. De fato, não basta, hoje, ser um bom mestre em sua área. É necessário mais. É preciso conhecer a alma humana e, para tal, é necessário conhecer-se. Ninguém pode oferecer o que não tem. Assim, é importante que o professor busque em si o equilíbrio emocional de que tanto necessita para ter êxito diante dos tantos desafios que a profissão abarca.

Diante de um quadro tão desolador, o que podemos esperar desta sociedade? O que nos reserva o futuro? Como manter-se equilibrado, quando tantas forças contrárias, tantos sinais de morte nos cercam? Como conservar-se em paz, quando os efeitos da violência por toda a parte se nos apresentam? Num primeiro momento, parece-nos que tais questionamentos não apresentam respostas eficazes. No entanto, à medida que vamos nos conhecendo de verdade, sem máscaras ou mecanismos de fuga, percebemos que a resposta está em nós mesmos, no mais íntimo de nosso ser e de nossas convicções. O desejo constante de superar a si e aos outros, nossas aspirações megalomaníacas, nosso ímpeto de consumir cada vez mais não satisfazem nossa alma sedenta de nós mesmos. Por vezes, o excesso de informações e a tecnologia, que nos conecta com o mundo através de um simples clique, desconecta-nos daquilo que temos de mais sagrado: nós mesmos, imagem sacral de um Deus que ama e chama.

Agostinho de Hipona, Santo e Doutor da Igreja, embora homem dos séculos IV e V, portanto de uma sociedade sem grandes aparatos tecnológicos, vivia, tanto quanto nós, inquieto e insatisfeito. Ele representa muito bem a nossa condição de homens pós-modernos: precários, limitados, fugidios de nós mesmos. Desconhecendo a verdadeira mística que o impelia, Agostinho vivia buscando um sentido maior para a sua existência tão medíocre. Percorreu, como muitos de nós, os caminhos do consumo e da satisfação dos prazeres até a exaustão e nada disso respondia ao vazio existencial que lhe devorava a alma. Numa sociedade tão relativista quanto a nossa, que tenta justificar o injustificável, o Santo de Hipona, depois de tantas vicissitudes pelas quais passou e superou, compreendeu que somente a ação sobrenatural de Deus poderia calar a sua consciência e refrigerar-lhe a alma e o corpo. É ele que afirma, em suas Confissões: “Fizeste-nos para ti e inquieto está nosso coração, enquanto não repousa em ti.”

Precisamos estar conectados, sem dúvida. Conectados conosco, com o que nos cala fundo, com o que nos alimenta a essência. Independentemente do caminho espiritual que percorramos, somente estaremos livres quando entrarmos em contato com a nossa verdadeira identidade. Não aquela que gostaríamos que fosse a nossa essência. Para isso, é preciso ter vida interior, é preciso ser amigo do silêncio. Silêncio tão temido pela sociedade do barulho que tenta, inutilmente, abafar a voz da consciência que lhe sussurra aos ouvidos, todos os dias, convidando ao caminho do retorno. A sociedade do consumo, com sua ótica permissiva e desumanizadora, quer nos desconectar e alienar do homem livre que somos, porque precisa de escravos alienados, doentes, frágeis. Conectados conosco verdadeiramente, sem representações e alegorias, estaremos conectados com Deus, fonte e sentido de toda a vida. E essa conexão é fundamental para que, apesar de todas as intempéries que nos cercam, consigamos encontrar a paz de que tanto temos necessidade.

Paz, saúde e equilíbrio!

Prof. Roberto Machado

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